O impacto silencioso do Doomscrolling na saúde mental

SAÚDE MENTALCOMPORTAMENTO

Psicólogo Diego Ramos (CRP 05/85924) e Isabella Ramos (CRP 05/61007)

6/3/20266 min read

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Nas últimas décadas, a forma como consumimos informação passou por uma revolução sem precedentes. Se antes dependíamos do jornal matutino ou do telejornal com hora marcada, hoje carregamos um fluxo ininterrupto de notícias globais no bolso. À distância de um toque, temos acesso a atualizações em tempo real sobre crises climáticas, conflitos geopolíticos, escândalos políticos e tragédias cotidianas.

Essa hiperconectividade trouxe um fenômeno psicológico moderno e alarmante: o doomscrolling (ou doompacing). O termo, que une as palavras doom (tragédia/ruína) e scrolling (o ato de rolar a tela das redes sociais), descreve a tendência obsessiva de rolar o feed de notícias em busca de informações negativas, mesmo que isso cause mal-estar, ansiedade ou desespero.

Mas por que nos sentimos tão magneticamente atraídos pelo que nos faz sofrer? E quais são as consequências profundas desse hábito para o nosso bem-estar psíquico?

A Armadilha Evolutiva e o Viés de Negatividade

Para compreender o doomscrolling, precisamos olhar para trás, especificamente para a nossa história evolutiva. O cérebro humano foi moldado para a sobrevivência. Na savana africana, nossos ancestrais que prestavam mais atenção aos perigos — como o som de um predador nos arbustos — tinham maiores chances de sobreviver e transmitir seus genes do que aqueles que focavam nas paisagens bonitas.

Esse mecanismo é conhecido na psicologia como viés de negatividade. Nós somos biologicamente programados para detectar, processar e reter estímulos negativos com muito mais intensidade do que os positivos (Baumeister et al., 2001).

O problema central é que o ambiente digital de hoje explora essa vulnerabilidade biológica. Os algoritmos das redes sociais são desenhados para maximizar o engajamento. Como o medo e a indignação geram mais cliques, compartilhamentos e tempo de tela, as plataformas priorizam conteúdos alarmistas. O que era um mecanismo de defesa ancestral transforma-se, no ambiente virtual, em um banquete inesgotável para a nossa ansiedade.

O Impacto Clínico do Excesso de Notícias Negativas

O consumo compulsivo de notícias catastróficas não é um passatempo inofensivo; ele atua diretamente no nosso sistema nervoso e na nossa estrutura cognitiva, gerando impactos severos na saúde mental.

1. Ansiedade Generalizada e Estado de Hipervigilância

Ao consumir repetidamente relatos de violência, crises e desastres, enviamos um sinal contínuo de ameaça para a amígdala, a região do cérebro responsável pela resposta de "luta ou fuga". Como resultado, o corpo libera doses constantes de cortisol e adrenalina.

Manter o organismo nesse estado de hipervigilância crônica esgota os recursos psíquicos e físicos, manifestando-se em sintomas como tensão muscular, taquicardia, irritabilidade e quadros de transtorno de ansiedade generalizada (TAG).

2. O Fenômeno do "Mundo Cruel" (Mean World Syndrome)

Desenvolvido originalmente pelo teórico da comunicação George Gerbner na década de 1970 para explicar os efeitos da televisão, o conceito da Síndrome do Mundo Cruel ganha proporções ainda maiores na era dos smartphones.

Indivíduos expostos a um fluxo massivo de notícias violentas ou trágicas tendem a superestimar os riscos da realidade real. Eles passam a enxergar o mundo como um lugar intrinsecamente perigoso, hostil e sem esperança, o que reduz drasticamente a confiança nas outras pessoas e nas instituições sociais.

3. Fadiga por Compaixão e Desamparo Aprendido

A exposição contínua ao sofrimento alheio sem que possamos intervir ativamente gera uma sobrecarga empática. Com o tempo, o indivíduo pode desenvolver a fadiga por compaixão, um estado de exaustão emocional onde a capacidade de sentir empatia diminui significativamente como forma de autodefesa.

Paralelamente, surge o desamparo aprendido (Seligman, 1972). Diante de tantas crises globais incontroláveis, a pessoa internaliza a crença de que nenhuma ação sua fará diferença, o que abre as portas para sintomas depressivos, apatia e perda de sentido.

4. Distúrbios do Sono e Prejuízo Cognitivo

O hábito de praticar o doomscrolling deitado na cama, momentos antes de dormir, é um dos maiores inimigos da higiene do sono. A luz azul dos dispositivos inibe a produção de melatonina (o hormônio do sono), enquanto o impacto emocional das notícias ruins impede o cérebro de desacelerar, resultando em insônia, sono fragmentado e pesadelos. No dia seguinte, a privação de sono cobra seu preço na capacidade de concentração, memória e tomada de decisões.

Como Identificar se Você Está Praticando o Doomscrolling?

Muitas vezes, o hábito está tão automatizado que não percebemos o prejuízo. Fique atento aos seguintes sinais de alerta: a) Você pega o telefone para checar uma informação rápida e, quando percebe, passou mais de uma hora pulando de uma notícia trágica para outra; b) Sente um aperto no peito, angústia ou mal-estar físico evidente enquanto navega pelas redes sociais; c) Sente a necessidade compulsiva de ler os comentários de publicações polêmicas ou trágicas, mesmo sabendo que haverá discussões hostis; d) A leitura de notícias está interferindo nas suas obrigações diárias, nos momentos de lazer com a família ou na qualidade do seu sono.

Estratégias Psicológicas para Romper o Ciclo

Mudar a nossa relação com a informação não significa alienar-se do mundo ou ignorar a realidade. Trata-se, fundamentalmente, de desenvolver uma dieta midiática saudável e proteger as nossas fronteiras psíquicas. A seguir, algumas práticas recomendadas pela psicologia clínica para retomar o controle:

Estabeleça Blocos de Tempo para Informação

Em vez de permitir que as notícias invadam o seu dia a cada notificação, determine horários específicos para se atualizar (por exemplo, 20 minutos pela manhã e 20 minutos no final da tarde). Evite ler notícias logo após acordar ou nas duas horas que antecedem o sono.

Desative Notificações de Portais de Notícias

As notificações de breaking news funcionam como gatilhos que sequestram a nossa atenção e disparam picos instantâneos de ansiedade. Ao desativá-las, você deixa de ser uma vítima passiva do fluxo de informações e passa a escolher ativamente o momento de se informar.

Pratique o Consumo Consciente e Qualitativo

Troque a rolagem infinita das redes sociais por fontes de jornalismo consolidadas, que analisam os fatos com maior profundidade e menor apelo ao sensacionalismo emocional. Se uma plataforma ou perfil específico causa gatilhos constantes de angústia, não hesite em silenciar, dar unfollow ou bloquear.

Cultive a Ancoragem no Presente (Mindfulness)

O doomscrolling nos projeta constantemente para um futuro catastrófico ou para realidades distantes sobre as quais não temos controle. Exercícios de respiração, meditação ou simplesmente focar os sentidos no ambiente ao redor (técnicas de grounding) ajudam a trazer a mente de volta para o aqui e agora, reduzindo a ativação do sistema nervoso.

Considerações Finais

A informação é uma ferramenta essencial para a cidadania e para a nossa orientação no mundo, mas ela perde sua função quando nos adoece. Reconhecer que o nosso cérebro não foi projetado para processar todas as tragédias do planeta simultaneamente é o primeiro passo para o autocuidado.

Preservar a saúde mental diante do cenário contemporâneo exige intencionalidade. Ao impormos limites saudáveis às telas, abrimos espaço para viver a realidade palpável à nossa volta, cultivando relações reais e protegendo o nosso equilíbrio emocional.

Referências:

BAUMEISTER, R. F.; BRATSLAVSKY, E.; FINKENAUER, C.; VOHS, K. D. Bad is stronger than good. Review of General Psychology, v. 5, n. 4, p. 323–370, 2001.

GERBNER, G.; GROSS, L.; SIGNORIELLI, N.; MORGAN, M. Living with television: The dynamics of the cultivation process. Perspectives on media effects, p. 17-40, 1986.

SELIGMAN, M. E. P. Learned helplessness. Annual Review of Medicine, v. 23, n. 1, p. 407-412, 1972.

REGER, M. A.; PICARD, T. S. The psychological impact of digital media overload in crisis contexts. Journal of Clinical Psychology, 2021.

Isabella Ramos é Psicóloga (CRP 05/61007), com formação em Psicanálise e Saúde Mental pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pela Rede de Saúde Mental de Niterói - RJ. Possui especialização em Psicanálise e Análise do Contemporâneo pela PUCRS.

Diego Ramos é Psicólogo (CRP 05/85924), com especializações em Avaliação Psicológica, Neuropsicologia, Psicologia Cognitiva e Psicologia Familiar. Também é Enfermeiro (Coren-RJ 420.291), com experiência na área assistencial e cirúrgica.

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